Sobre Lucia Py
Desde 1966, atua no espaço urbano e nos principais museus do país com individuais, apropriações, interferências, instalações e cenas. Pesquisa o objeto multiplicado “o mesmo no outro”, pela magia de ser único dentro da produção em massa. Procura o ponto perfeito na união de material bastardo com o nobre, a pesquisa do fascínio na dialética dos opostos.
Possui obras em vários acervos e museus, tais como: a Pinacoteca do Estado de São Paulo, MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo, Acervo do Palácio do Governo do Estado de São Paulo, Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, Acervo Yázigi, Espaço Cultural Sonilton Alves, Acervo Meta 29, Novosibirsky State Art Museum (Rússia), Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (Brasil), National Center for Contemporary Art Moscou (Rússia), Museu Gráfico Contemporâneo - Anexo Academia de Arte Gráfico (San Petersburgo, Rússia).
Paisagens e retratos de Lucia Py
Paisagens e retratos de Lucia Py
UM
Escrever sobre a poética de Lucia Py é tarefa de crítico treinado, olhar amadurecido ou de alguém dotado de uma visão especializada. Coisa para bons e poucos. Geralmente exige-se desse escritor eleito um repertório considerável e múltiplas abordagens quase científicas.
Eu não pertenço a esse clube. Meu currículo é chapado (e tudo indica que sempre será). Eu não sei tecer linha a linha uma linguagem que tenha como pano de fundo (vermelho ou dourado) a filosofia e outras teorias a respeito da arte. Talvez por ser um artista manco e incompleto que deseja o olhar deslocado. Que oferece uma escrita esfacelada. Produto de comoção e de uma sintonia em que não há peso e medida. Tudo vem num turbilhão vulcânico. Sem licença. Com o risco de ser errante.
Lucia Py me escolheu assim para falar dela. Sabendo quem eu sou. Generosamente e de espírito sem grilhões, percebeu que na minha marginalidade poderia traduzir algo sobre sua obra. Não quero fazer um exercício de inferioridade ou algo meloso e morno. Prefiro uma verdade. Que nem sei onde está. Declaro dessa forma, antes de mais nada, a minha condição intuitiva para encontrar os caminhos da produção artística de Lucia Py. Incrivelmente polifônica. Muitos deles vindos de trilhas de belezas de coisas bastardas.
A nossa jornada, de tantas etapas, começou há muito tempo. Já escrevi sobre ela em outras situações. Confesso que fui ao seu encontro - muitas vezes - com a racionalidade exasperada, preparado com perguntas objetivas e buscas intensas para saber abordá-la inteligentemente. Nos começos, meios e fins de muitas conversas eu é que saia aprendendo. Uma covardia. O avesso. Artista de tanta leitura, erudição e refinamento. Entrava em parafuso. Eu me sentia tantas vezes a voz calada. Ao mesmo tempo os nossos ecos autistas, discutidos em alguns encontros, passaram de longe e não merecem focos de luzes. Discursos de loucos e de gente malabarista.
O pecado maior, preciso confessar, foi ter perdido um dos quatro cadernos em que anotei loucamente o que ela ia dizendo nas conversas frequentes dos últimos meses. Escrevi tanta coisa pungente na tentativa de desenhar pela palavra as paisagens e os retratos de Lucia Py. Visões intensamente espalhadas em pormenores e amplidões de seus ateliês e da sua interioridade artística.
A perda do caderninho, no entanto, foi providencial. Por consequência trabalhei com um novo método de exercício da memória. Que não fosse cronológico, nem da procura da exatidão, nem do falso-acadêmico. Lucia Py demanda outra atenção. Essa foi (orgulhosamente) a minha (alegre) descoberta.
Pensei em escrever uma biografia comentada após o material coletado e memorizado. Uma furada. Ou fazer um perfil que relacionasse conduta de vida, estímulos artísticos e influências externas. Coisa para jornalistas de "economia". Números, datas, lugares, gráficos imaginários da obra de Lucia Py e por aí afora. Cercar a sua produção e sua poética. Inútil. A opção que me restou veio pela narrativa literária. "Sinceramente... que literatura tenho eu para oferecer? Deixa William Faulkner em paz", fustiguei contra mim mesmo.
Fazer da artista uma protagonista do meu texto e jogá-la na minha circunstância pseudo qualquer coisa seria antiético, tolo ou mesmo pretensioso. Bobeira. Artistas como a Lucia Py merecem todo o esmero na palavra. Não quero aqui esfregar o ego dela. Não sou dado a isso. Ela bem sabe. Nos textos que escrevi consigo sustentar que abomino a bajulação e deslumbramento sem amarras.
A opção foi alinhavar retratos e paisagens, como citei acima. Presenciei ao longo de manhãs nubladas, tardes ensolaradas e noites frias uma Lucia Py que se revela pelo que faz, onde faz e por quais motivos faz. Dessa regulação possível (talvez a mais próxima da honestidade e da retidão de intenção) escolhi encontrar formas de dizer à minha maneira sobre uma artista verdadeiramente artista. Tarefa difícil. Levei tanto tempo para escrever isso sobre ela. Agora escrevo com mansidão e desejo de oferecer aos vários públicos de Lucia Py pequenos relatos originados de encontros desde 2007.
Escapo de forma matreira dos significados científicos do que é retrato e o do que é paisagem. Pelo amor-de-deus. Escolhi o que é simples. Fiz um filme na minha cabeça e assisti zapeando para frente e para trás. Gravei falas inesquecíveis de Lucia Py e percebo comovido como várias obras da artista têm essências e perfumes de vida macerada.
Os retratos e paisagens de Lucia Py estão nas suas obras e pelo que imprime em palavras e gestos. No tratamento dispensado a cada detalhe de cada trabalho e como nutre afinco no que faz. Como modula e procede. No impulso que a coloca no centro de uma criação hercúlea, diária, sem meias-verdades. Que não pede descanso, cafezinho, sombra e água fresca. Nos ambientes do ateliê atual e na sua casa, repleta de batidas bachianas, livros sublinhados, flores brilhantes, plantas em estado puro, ordenamento de papéis e catalogação da sua carreira. Fatos que se acumulam e são sacramentados. Merecidamente.
O sistema solar da artista de sotaque carioca e olhar profundo se irradia desse jeito diante da minha percepção de escrevinhador. São conjuntos de obras, espaços físicos e instrumentos de confecção de trabalho. Pinturas, cadernos, anotações em folhas soltas, objetos, assemblages, joias e tantas obras sem categorias definidas que levam a uma visão totalizadora. Retratados um a um e em estados de paisagens a serem viajados.
Espero que esse texto consiga arrancar de dez pelo menos um leitor que se encante com as coisas-relíquias de Lucia Py. Elas estão lá. A sorte é de quem encontre a plenitude da obra da artista num trânsito que vai da peça única em direção ao conjunto. Ou vice-versa. Do global por ela representado para uma peça e outra até chegar ao pequeno desenho projetado num canto de um dos seus magníficos cadernos.
Aponto um caminho. Por meio de descrições acompanhadas ou não de imagens. Não apresento aqui um trabalho exaustivo de descrições e delírios poéticos conclusivos. Sugiro pelos textos percursos (minimamente convenientes) para dizer a que veio Lucia Py. Ela certamente tem muito mais a dizer plasticamente do que essa minha proposição.
DOIS
A antessala na casa de Lucia Py acolhe pelo calor composto das obras, das plantas, dos livros, das transparências que filtram as imagens do mundo externo. Na parede, logo ao lado da porta envidraçada, um objeto antigo. Galhos vergados secos e dóceis ao vento congelado. Trabalho recorrente a outros momentos da artista. Pela primeira vez que entrei sozinho nesse ambiente, numa tarde ensolarada, fiquei estarrecido. Silenciado, observei melhor a tudo o que podia, com a licença dispensada e a mim confiada. Lucia Py estava ocupada ao telefone e fui recebido por um empregado da casa. Fiquei por mais de cinco minutos desacompanhado. Olhei novamente para a obra da parede e a relacionei com uma das frações da poética da artista. Que me disse do vento e de como montou a estrutura aparentemente inflexível do material. A penca de pinhas, formada de peças de vidro e seguros por cordas desde o teto, configurava outra dramaticidade vindo da luz das 15 horas. O relógio marcava a hora. Antessala preparatória.
TRÊS
Sempre admirei essas maçãs tão revividas no âmago da verdade de Lucia Py. Vieram de sua macieira. De uma árvore desconhecida, raízes vitoriosas fincadas em solos milenares. Não foram arrancadas, mas colhidas uma a uma. Esparramadas sobre a fruteira de pedra metálica alimentam o olhar. Frutas cezannianas organizadas na antessala. Quase escondidas, tão perto de um livro referencial de Bachelard. Só lembro, diante delas, de ter escutado um coral magnânimo de Arvo Part.
QUATRO
"Tudo que é sólido desmancha no ar", de autoria de Marshall Berman. Encontrei o livro entre tantos outros empilhados numa mesinha. Vim de ônibus numa tarde de inverno de espetaculares nuvens e pude observar melhor outros detalhes da antessala de ofícios de Lucia Py enquanto ela preparava um café. Busquei fazer leituras desde a porta. Logo que nos vimos em seguida começamos a conversar sobre o jornalista Vladimir Herzog, morto na delegacia da rua Tutoia, em fins de uma ditadura cruel e burra. A artista fez a sua derivação artística do acontecimento, sem narrativa política ou de protesto fácil. A história rendeu séries de trabalhos.
CINCO
Anotei num dos caderninhos a frase reveladora de Lucia Py: "Preciso da beleza. É o meu canal de atração. Pode vir do horripilante, da coisa desgastada ou situação degradada". Penso no que ela falou tendo como base visual os menores objetos espalhados pelo seu antigo ateliê, montado em um imenso galpão (hoje demolido) no bairro da Aclimação, em São Paulo. As paredes marcadas pelo tempo, o chão sem dignidade para os fomentadores do luxo imobiliário e o teto esgarçado por tempestades, chuvas de granizo, sol impetuoso de verão e noites frias de lua cheia. A notícia de ter que abandonar o galpão atingiu Lucia Py em cheio. Percebi, porque também sofri com a mudança, e não toquei mais no assunto. Aquilo tudo ficou com uma estranha marca de beleza. Mais ainda por ter anotado, num final de tarde antes de sair, outra frase sua: "esse ateliê é como um lugar de banquete. Nele eu me alimento".
SEIS
O que tinha dignidade para servir um bom vinho, riqueza translúcida e desfilava pelas mesas bem postas se quebrou. Lucia Py reuniu um grupo de cálices rejeitados e os transformou em assemblage. Hoje são coletadores (coletores ?) de frutos secos pintados de ouro. Os cacos cortantes e coloridos brilham à menor incidência de luz. Estavam no antigo ateliê. Permaneceram entre um canto e outro da casa e os vi de novo na antessala. Brindo a essa beleza que resgata o desenho das coisas quebradas. De qualquer coisa.
SETE
O Barroco lida com as questões da circularidade do tempo e do espaço. Lucia Py afirma que procura a circularidade, após lhe indagar se tem algum fascínio pela arte do século 15. Ela diz isso em um dos nossos encontros, sentada no ateliê, junto às suas anotações de linhas traçadas linearmente. A artista executa sua obra sempre com vistas ao presente, mas com a sensação de ter sempre em conta as experiências passadas. "É a procura do cerne da alma", pronuncia. A minha imaginação voa quando ela fala assim e sou quase tomado por um torpor ao ver a paisagem física que me rodeia. Palavras e objetos se misturam numa velocidade que tento alcançar nos minutos seguintes.
OITO
O ateliê de Lucia Py me faz lembrar uma floresta com clareiras iluminadas, janelas para abstrações de cores fortes, algumas de um azul potente, e rios que deságuam num mar de símbolos. Muitos dos quais não consigo desvendar pela minha limitação dissertativa. A luz branca no teto racionaliza os espaços e o ateliê ganha forma tal qual se organiza. Deixo a viagem de lado e fico imerso nos cadernos de artista – pintados e impressos em pequenas placas de madeira. Delicadezas impagáveis. O desdobramento que acontece impossibilita deixar a percepção quieta. Estímulos visuais dão um contentamento e procuro não metaforizar. O ateliê é o que é. Rico e diverso.
NOVE
Os martelos devem ter massacrado materiais até que se tornassem dóceis. A roldana bastarda, feia para muitos, perigosa pela ferrugem incontinente, pousa ao lado dos pincéis. No detalhe instrumentos de operações cortantes que mesclam metafísica e corporeidade. Lucia Py aproxima instrumentos de trabalho a pequenas obras finalizadas. Algumas nem tanto. A dimensão que dá com seu manuseio é de impedir as discriminações: arte aqui, material de fazer arte ali. Tudo ganha valor estético. Mas esse todo é premiado também pelo valor amoroso impresso nos afazeres da artista. O que, na minha opinião, é o toque de Midas.
DEZ
Acompanhei parte do processo de confecção dessas joias (antes assemblages e experiências de materiais e de formas). São danças de pequenos bracinhos. Manobras dirigidas pelas mãos de Lucia Py. Devem ganhar pescoços. Adornar corpos e ocupar caixas de mulheres. Associar cada peça a uma música é tentador. Numa manhã fui chamado pela artista, já minha amiga, a compreender a feitura e motivação das séries. O trabalho árduo é desnecessário contar aqui. Lucia Py mostrou o trabalho em uma etapa adiantada. Disparei o registro e aqui ofereço um retrato falado.
Washington de Carvalho Neves Dellacqua
jornalista especializado em artes visuais
UM
Escrever sobre a poética de Lucia Py é tarefa de crítico treinado, olhar amadurecido ou de alguém dotado de uma visão especializada. Coisa para bons e poucos. Geralmente exige-se desse escritor eleito um repertório considerável e múltiplas abordagens quase científicas.
Eu não pertenço a esse clube. Meu currículo é chapado (e tudo indica que sempre será). Eu não sei tecer linha a linha uma linguagem que tenha como pano de fundo (vermelho ou dourado) a filosofia e outras teorias a respeito da arte. Talvez por ser um artista manco e incompleto que deseja o olhar deslocado. Que oferece uma escrita esfacelada. Produto de comoção e de uma sintonia em que não há peso e medida. Tudo vem num turbilhão vulcânico. Sem licença. Com o risco de ser errante.
Referências Lucia Py
- 1. A Virada do Século - Paz e Terra – Editora Unesp – Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo – reflexões sobre a passagem do milênio – organização Anna Carboncini . 1.987 – textos José Miguel Wisnick , Fernando Henrique Cardoso ... .
- 2. MAM – Inventários – Catálogo Geral do Acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo – concepção , coordenação geral Tadeu Chiarelli – editora Lemos Editorial 2.002.
- 3. Do Yazigi à Internexus – Ricardo Young Silva – editora Nobel – 2.000.
- 4. A Imagem no Ensino de Arte - anos oitenta e novos tempos - Ana Mae Barbosa – Editora Perspectiva – 1.991 – série Estudos – Estudos – Estudos
- 5. MAC USP 40 anos – Ibirapuera – 2.003 - Organização Editorial – Elza Ajzenberg – MAC USP 40 artistas – curadoria Daisy Peccinini, Kátia Canton
- 6. The Art Book Brasil – abstratos – texto- Paulo Klein – Editora Décor – editor Antonio Carlos Gouveia Jr.
- 7. BrasilianArt- Book I – C.A. Editorial – 1.999 – curadoria – Nair Barbosa Lima – texto - Paulo Klein, editor - Marcos Barbosa Lima.
- 8. Brasil Artshow n° 3 – curadoria – Nair Barbosa Lima – texto – Paulo Klein – editora Atelier do Brasil – 2.008.
- 9. Natureza x Cidade – Iuri Moraes – José Pinto – projeto Meta Cultural/ Meta 29
- 10. Revistas, jornais, catálogos, folders – registram sua trajetória desde 1.971
Obras de Lucia Py
Ateliêr Lucia Py
A artista executa sua obra sempre com vistas ao presente, mas com a sensação de ter sempre em conta as experiências passadas. "É a procura do cerne da alma", pronuncia. A minha imaginação voa quando ela fala assim e sou quase tomado por um torpor ao ver a paisagem física que me rodeia.
Palavras e objetos se misturam numa velocidade que tento alcançar nos minutos seguintes".
Fragmentos por Washington de Carvalho Neves Dellacqua
jornalista especializado em artes visuais
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